Existe uma desumanização do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no tratamento das mães.
Em 2005, soube que estava grávida. Tinha iniciado as consultas no Porto, mas acabei por
ser transferida para Lisboa. As médicas que me acompanharam foram maravilhosas —
tanto a médica do Centro de Saúde como a obstetra do Hospital D. Estefânia. Senti-me
acompanhada e respeitada durante essa fase inicial.
Durante a gravidez do meu primeiro filho, perguntei:
— Quando é que nasce?
Informaram-me que a natureza tem o seu tempo, e que o bebé poderia nascer entre as 38 e
as 42 semanas.
A partir das 38 semanas, a instrução foi clara: andar muito. Eu vivia num terceiro andar sem
elevador, por isso subia mais de 100 degraus por dia. Estávamos em abril, o tempo estava
bom, e aproveitei para passear por Lisboa. Lembro-me de subir as muralhas do Castelo de
S. Jorge três vezes. No dia 25 de abril, voltei a subir o castelo e nada. O bebé continuava
tranquilo.
No dia 30 de abril, completava 41 semanas. Comecei a sentir alterações e dores, por isso
fui à urgência durante a tarde. Mandaram-me para casa.
No dia 7 de maio completaria 42 semanas. Então, no dia 5, esperei o meu marido chegar do
trabalho e, passadas algumas horas, voltei à urgência. Quando cheguei, fizeram-me três
perguntas:
— Quando está previsto?
— O que sente?
— E a seguir, vá para casa.
À medida que me faziam estas perguntas, o meu corpo e a minha mente reagiram. Foi
como uma transformação química, física e psicológica. Passei de um estado sensível para
um estado de combate.
Respondi com firmeza:
— Não saio daqui. Pode chamar a polícia.
Encolheram os ombros… e lá me internaram.
Induziram o parto, mas o meu filho acabou por nascer por cesariana, com 41 semanas e 6
dias.
O maior medo de uma grávida é morrer no parto ou perder o seu bebé. A partir do momento
em que uma mulher está prestes a dar à luz, carrega medos profundos e, infelizmente,
depara-se muitas vezes com uma postura fria e desumanizada por parte dos profissionais
de saúde. Isso não acontece apenas com um ou outro. A falta de empatia parece estar
presente em toda a hierarquia. Todos querem dar ordens às parturientes e muitas vezes,
ordens que se contradizem entre si.
Depois do nascimento, quando a mãe regressa a casa, parece que todos à volta acham que
a vida volta ao normal. Mas isso não é verdade. A mulher que acaba de dar à luz é invadida
por conselhos, sugestões e imposições. Todos acham que sabem o que é melhor. O
segredo está em filtrar essa informação e contar com uma amiga ou familiar de confiança,
que possa ajudar e apoiar com empatia.
A partir daquele dia, decidi quais seriam as minhas prioridades: os filhos, o marido e o
trabalho.
Em conclusão: Num País com baixa taxa de natalidade não estão reunidas as condições de
segurança para grávidas. Ninguém se admire se as mulheres não queiram ter filhos.
Quando tudo corre bem, temos um excelente Administrador Hospitalar, quando as coisas
correm mal, a culpa é do Ministro da Saúde.