domingo, 15 de março de 2026

Do Secundário ao Superior: O Atalho Ruinoso

O ensino da Matemática no ensino secundário tem sido alvo de mudanças profundas que, em vez de fortalecerem a formação dos alunos, abriram um fosso perigoso entre a escola e o ensino superior. As Aprendizagens Essenciais (AE) de 2023, apresentadas como uma modernização necessária, reduziram o rigor, fragmentaram conteúdos e reforçaram uma dependência tecnológica que mascara fragilidades graves. Embora ainda não tenham produzido a primeira geração de alunos que chegará ao ensino superior, a direção tomada agrava problemas já existentes e prepara terreno para dificuldades ainda maiores. É importante recordar que as primeiras AE, introduzidas em 2018, apesar de representarem uma simplificação face ao programa de 2014, mantinham ainda uma estrutura coerente e garantiam resultados mais consistentes. Os alunos formados sob estas AE, que são os que atualmente chegam ao ensino superior, apresentavam maior domínio algébrico e menor dependência tecnológica. Mesmo assim, já se verificava uma perda de profundidade face ao programa anterior. A revisão de 2023, ainda mais leve e fragmentada, aponta para um agravamento inevitável desta tendência. A reforma de 2023 introduziu três pilares, Matemática para a Cidadania, Pensamento Computacional e diversificação de temas, que, apesar de bem‑intencionados, diluíram a profundidade científica da disciplina. A possibilidade de cada escola escolher entre Inferência Estatística, Primitivas e Integrais ou Matrizes criou desigualdades e lacunas graves na formação dos alunos. E tudo isto foi feito sem que a Sociedade Portuguesa de Matemática fosse ouvida em todas as etapas, um erro grave num processo que deveria ter sido cientificamente sustentado. A dependência quase total da calculadora gráfica é outro sintoma desta deriva. Aquilo que deveria ser um apoio tornou-se o centro do processo de ensino. Os alunos habituam‑se a resolver exercícios através de comandos automáticos, a interpretar gráficos que não sabem construir e a confiar numa máquina que, no ensino superior, não podem utilizar. Nas universidades, sobretudo nas engenharias e nas ciências, o uso de calculadoras gráficas é proibido. O que conta é o raciocínio, a manipulação algébrica, a capacidade de demonstrar e de resolver problemas de forma autónoma. As consequências já são visíveis. O insucesso no ensino superior tem vindo a aumentar, especialmente no primeiro ano, onde se concentram as disciplinas matemática e cálculo. As taxas de reprovação são elevadas e o abandono escolar cresce de forma alarmante. Muitos estudantes, incapazes de acompanhar o ritmo e a exigência das disciplinas iniciais, acabam por desistir do curso ou mudar de área. O insucesso não se traduz apenas em notas baixas: traduz‑se em frustração, perda de confiança, adiamento de projetos de vida e numa desconexão crescente entre a formação académica e o mercado de trabalho. E tudo isto não acontece por falta de capacidade dos alunos. Acontece porque o sistema lhes retirou treino, profundidade e exigência. As AE de 2018 já tinham reduzido o rigor; as de 2023 aprofundam ainda mais essa fragilização. O fosso entre o secundário e o superior não é um acaso: é o resultado direto de políticas educativas que desvalorizaram o pensamento matemático. É urgente recuperar a seriedade e a profundidade do ensino da Matemática. A disciplina exige esforço, prática, abstração e rigor, competências que não se desenvolvem com atalhos tecnológicos nem com currículos fragmentados. Se queremos formar jovens capazes de enfrentar estudos superiores exigentes, resolver problemas complexos e pensar criticamente, é indispensável reconstruir a ponte que o sistema deixou ruir. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir ao aumento do insucesso e do abandono no ensino superior, um preço demasiado alto para ser pago pelos estudantes, pelas famílias e pelo país.

sábado, 7 de março de 2026

Era da Guerrilha Eleitoral

Portugal viveu, nos últimos três anos, um ciclo político marcado por seis eleições, uma sucessão de crises institucionais e um país permanentemente em modo de campanha. Este ambiente desgastou o eleitorado e abriu espaço para uma nova forma de disputa política: a guerrilha eleitoral, que se tornou central na transformação do sistema partidário. Não foi acaso. Foi o contexto perfeito, uma oportunidade única que alguns partidos souberam aproveitar. Quando um país é arrastado repetidamente para eleições, instala‑se uma fadiga coletiva. O debate perde profundidade ideológica, os partidos do sistema entram em piloto automático e o eleitorado passa a ouvir tudo como ruído. É nesse ruído que a guerrilha eleitoral prospera, e prospera de forma exponencial. Enquanto uns tentavam sobreviver ao desgaste, outros ocupavam o espaço com uma estratégia agressiva, diária, calculada ao milímetro. Não se tratou apenas de comunicar: è de impor presença, dominar ciclos mediáticos e virtuais e transformar cada polémica em palco. A máxima mantém‑se: falem bem ou falem mal, mas falem. A guerrilha eleitoral não é subtil. Vive do confronto permanente, da simplificação radical e da ocupação total do espaço público e digital. Num país cansado, funciona como um choque: até quem vive alheio à política, ou nem vota, tem opinião. E instala-se a sensação de que só há dois lados, “com o sistema” ou “contra ele”. É eficaz porque é emocional e porque se repete até se tornar inevitável. Cada ida às urnas foi mais do que um ato eleitoral: serviu para reforçar presença, testar mensagens, medir impacto e lançar novas personagens politicas. A guerrilha não vive de programas, vive de momentos , e seis eleições oferecem muitos. Enquanto os partidos do sistema explicavam orçamentos, a guerrilha oferecia certezas rápidas, indignação pronta e respostas simples para problemas complexos. Num ciclo tão curto, quem domina o choque ganha vantagem. A crítica constante ao Chega teve um efeito inesperado: ampliou a sua visibilidade. A guerrilha alimenta‑se disso. Cada ataque torna-se prova de perseguição, cada polémica vira palco, cada debate reforça a narrativa anti‑sistema. Num país em campanha permanente, visibilidade é poder, e a guerrilha eleitoral sabe usá‑la como poucos, porque luta para sobreviver e se afirmar no espaço deixado por outros. Mas há um ponto adicional: num ambiente saturado de confronto, quem se distanciou da guerrilha também se beneficiou. A exaustão coletiva abriu espaço para discursos que recusaram entrar no jogo do choque permanente. Num país cansado, o distanciamento tornou‑se, por si só, uma mensagem política. O crescimento do Chega não resulta de um único fator, mas ignorar o impacto da guerrilha eleitoral seria negar o óbvio. Num ambiente saturado e emocional, a estratégia de confronto permanente encontrou terreno fértil. Seis eleições em três anos criaram esse contexto. Nunca, em cinquenta anos, o país mudou tanto. A guerrilha eleitoral ocupou o espaço mediático com um alcance inédito, e quem se afastou desse confronto encontrou também espaço para crescer. O sistema político português mudou, e quem ainda não percebeu fica para trás. E há um dado adicional que não deve ser ignorado: se o país estiver agora três anos de estabilidade até novas eleições, o próprio mapa partidário pode voltar a mudar. Ou a guerrilha eleitoral prospera, ou outras estratégias podem ganhar terreno, outras lideranças podem emergir e o eleitorado pode reorganizar‑se de formas hoje imprevisíveis.
Elisa Manero

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O Retrocesso Silencioso que a Direita Precisa de Enfrentar

A Direita em Portugal está a crescer, mas esse crescimento não é uniforme. Há uma Direita moderada, representada pelo PSD; uma Direita liberal, com a Iniciativa Liberal; e uma Direita extremista, com o Chega. Eu, sendo uma mulher de Direita, não me revejo nem no radicalismo liberal nem no populismo agressivo. Sou mãe, sou casada, trabalho, e nunca aceitei a ideia de que o mundo pertence aos homens. Desde cedo enfrentei a supremacia masculina, e se isso faz de mim uma feminista de direita, então assumo-o sem reservas. Porque, sejamos claras: se um homem precisa de humilhar uma mulher para se sentir forte, não serve. Não serve para liderar, não serve para governar, não serve para construir nada. A minha posição é simples e coerente: sou contra desigualdades, discriminações e estruturas patriarcais; defendo a equidade salarial, os direitos reprodutivos, o combate à violência de género e a igualdade na representação política. Nada disto é incompatível com ser de direita, é incompatível, isso sim, com um conservadorismo que tenta ressuscitar um passado que já não existe. Durante décadas, a mulher tinha dois destinos: casar ou ficar em casa dos pais como empregada. Esse modelo desapareceu e não voltará. O homem, por sua vez, casava e criava família ou ficava em casa dos pais, os eternos “meninos da mamã”. Cada um fazia a sua escolha e o mundo seguia. Mas hoje, de forma subtil, começa a reaparecer um discurso que tenta recuperar o modelo tradicional, só que com uma contradição evidente: a mulher continua a trabalhar, mas o homem quer voltar a ser o “chefe de família”. O resultado é um papel triplo imposto às mulheres, trabalhadora, mãe e ainda esposa obediente, um modelo impossível, injusto e completamente desfasado da realidade. É neste contexto que surge o pacote laboral do Governo, apresentado como modernizador e promotor da conciliação. Mas, na prática, pode agravar desigualdades já existentes. Alterações na remuneração, suplementos e formas de contabilização de rendimentos podem penalizar ainda mais as mulheres, que continuam a ganhar menos mesmo quando são mais qualificadas. A flexibilização anunciada como solução para a vida familiar pode, na verdade, recair sobretudo sobre elas, reforçando a carga mental e travando progressões na carreira. Para a classe média, o pacote introduz incerteza sobre rendimentos e estabilidade, afetando decisões fundamentais como ter filhos, mudar de emprego ou investir em formação. O risco é claro: um retrocesso silencioso. Um país que fala de igualdade enquanto aprofunda desigualdades. Uma sociedade que diz valorizar as mulheres enquanto lhes exige tudo, e ainda mais um pouco. A igualdade de género, a conciliação entre trabalho e família e o impacto real das reformas laborais na vida das mulheres e da classe média não são temas laterais: são estruturais. E é fundamental que sejam tratados com seriedade, frontalidade e responsabilidade institucional. Portugal não pode permitir que discursos regressivos se imponham sobre a realidade das mulheres portuguesas, nem que reformas apresentadas como progresso acabem por reforçar desigualdades antigas. A democracia amadurece quando enfrenta os temas difíceis. Este é um deles. E é tempo de o colocar no centro do debate nacional, sem ruído, sem slogans, sem medo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

1º capítulo : As Presidenciais de 2026: O essencial, o acessório e o ruído.

A AD decidiu apoiar Luís Marques Mendes, cujo slogan era a experiência. A experiência é necessária num professor, num mestre, num mentor. Mas num mundo em mudança, a palavra inovação também é indispensável. Marques Mendes tentou replicar o modelo Marcelo. Mas o modelo Marcelo tinha uma ideia: comentava com a emoção de um Professor. Podia discordar-se dele, mas raramente alguém ficava zangado; no limite, fez-se amar. Marques Mendes tinha outro papel: o da verdade absoluta, do comentário seco, sem emoção nem humanidade. Para alguns, podia ser referência; para outros, era indiferente. O carisma ,,,,,,, E os outros? António José Seguro voltou. Quando saiu, em 2014, saiu em silêncio. Foi cuidar da sua vida. Passados dez anos, mediu o momento. Quem o apoiou ficou em cheque. Quando começou a subir nas sondagens, o Partido Socialista correu a apoiá-lo. Mas quem ganhou foi António José Seguro não foi o Partido Socialista. Seguro não gritou, não esperneou. Soube esperar. Nunca tinha visto uma campanha presidencial assim. Foi degradante. Houve de tudo até comédia. Ganhou quem cometeu menos erros, quem pensou antes de falar, quem mediu os silêncios, quem soube distinguir o essencial do acessório. E podem perguntar: Votou no Seguro? Eu não votei em António José Seguro. Mas tenho sentido crítico. E oiço bem. Muito bem.
Elisa Manero

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Não te deixes enganar - Código do trabalho Comparativo: Antes vs. Depois do Trabalho XXI -

 

Comparativo: Antes vs. Depois do Trabalho XXI

Tema

Antes (Situação Atual)

Depois (Proposta do Governo)

Contratos a termo

Duração mínima não definida; termo certo até 3 anos, incerto até 6 anos

Mínimo de 1 ano; termo certo até 3 anos, incerto até 5 anos; exceções para startups e reformados

Contrato intermitente

Rendimentos deduzidos nas pausas

Pausas sem dedução de rendimentos

Banco de horas

Apenas por acordo coletivo ou individual

Individual por acordo direto; coletivo exige adesão de 75% da equipa

Teletrabalho

Regulação genérica; despesas nem sempre cobertas

Acordo obrigatório sobre local/dias/horário; despesas pagas; reuniões dentro do horário

Licença parental

120 dias pagos a 100%; partilha não obrigatória

Até 180 dias com partilha obrigatória para 100%; escalonamento de subsídio por duração

Amamentação

Até 1 ano com atestado médico

Até 2 anos com atestado renovável de 6 em 6 meses

Formação (microempresas)

40 horas por ano

Redução para 20 horas por ano, com foco em conteúdos úteis ao posto

Outsourcing após despedimento

Proibido por 12 meses para mesmas funções

Revogação da proibição

Férias adicionais

Não previsto

Possibilidade de adquirir até +2 dias como faltas justificadas sem retribuição

Duodécimos

Subsídios pagos em momentos definidos

Opção de receber em 12 meses

Período experimental

180 dias para primeiro emprego e desempregados de longa duração

Eliminação dessa regra

Greve e serviços mínimos

Serviços mínimos restritos a setores críticos

Alargamento a creches, lares, abastecimento alimentar e segurança privada

Plataformas digitais

Sem presunção de vínculo laboral

Presunção de contrato de trabalho quando há controlo sobre tarefas, horários ou preços

Dependente económico

Sem proteção específica

Direito a representação e negociação coletiva

Horários e férias

Divulgação física ou informal

Obrigatoriedade de divulgação visível e atualizada (intranet ou afixação)














terça-feira, 11 de novembro de 2025

O erro silencioso da educação in Observador

 


Nos últimos anos, pais e professores têm-se empenhado em oferecer o melhor para os jovens, e com razão: eles são o futuro. Queremos protegê-los, guiá-los, garantir que tenham sucesso. Mas, nesse zelo, cometemos um erro silencioso: antecipamos tanto as suas necessidades que acabamos por impedir o seu crescimento.

Hoje, os jovens já não precisam procurar soluções.

Vejamos um exemplo prático: Um jovem que frequenta o Ensino Secundário e obtém avaliações negativas numa disciplina necessita de ajuda. Esse aluno irá cooperar porque percebe que esse apoio é essencial para o seu sucesso. Outro exemplo: um aluno do 8.º ano recebe apoio na disciplina de Matemática. O explicador antecipa os conteúdos, e o jovem, na aula, opta por fazer tudo,  menos estar atento. Neste caso, o aluno está a sair prejudicado.

Eu também cometi esse erro. Posso relatar que decidimos que a minha filha iria fazer uma atividade de uma semana na área do Teatro. A minha filha, uma jovem de 14 anos na altura, apenas me disse:

 — Alguém me consultou? Fiquei em silêncio. Ela tinha razão. 

A partir dessa data, eles decidiram o que queriam fazer. Eu decidi o que queria  ou podia pagar.

Quando antecipamos tudo, anulamos a oportunidade de os jovens se descobrirem.

Os jovens já não precisam investigar, nem pensar criticamente. Por quê? Porque tudo já foi resolvido por nós. Antecipamos as suas dúvidas, as suas escolhas, os seus caminhos. Até mesmo a área que vão estudar muitas vezes é decidida por adultos, sem que o jovem tenha tempo ou espaço para descobrir os seus próprios interesses.

Essa antecipação excessiva transforma a educação num roteiro fechado, onde o aluno apenas segue instruções. Ele não aprende a identificar uma necessidade, não desenvolve autonomia, não sabe pedir ajuda, não sabe que caminho seguir — porque nunca precisou. E isso é preocupante. A escola e a família deveriam ser espaços de estímulo à curiosidade, à experimentação, ao erro e à descoberta.

Pais e professores precisam refletir: estamos a formar jovens preparados para o mundo ou apenas protegidos dele? Educar é mais do que oferecer respostas — é ensinar a fazer perguntas. É permitir que o jovem se frustre, que se perca, que escolha e que volte atrás. Só assim ele aprende a pensar por si mesmo, a tomar decisões e a lidar com as consequências.

As políticas públicas também seguem essa lógica. Os programas dos sucessivos governos não oferecem estágios para que os jovens conquistem algo por mérito. Oferecem livros e férias. Os jovens já não têm de fazer nada para obter alguma coisa.

Faço uma ressalva para algumas autarquias, nomeadamente a Câmara Municipal de Cascais, reconhecida como Capital Portuguesa do Voluntariado 2024. A autarquia foi distinguida com o Galardão Autarquia Voluntária, pelo seu compromisso com o envolvimento cívico dos jovens. Destaco também o programa de voluntariado do MAAT, financiado pela Fundação da Juventude, que oferece experiências reais de participação e responsabilidade.

É hora de devolver aos jovens o protagonismo das suas vidas. De confiar que eles são capazes de sentir, pensar, escolher e aprender. A nossa função não é antecipar tudo, mas estar ao lado quando eles precisarem,  como guias, não como substitutos da experiência.


https://observador.pt/opiniao/o-erro-silencioso-da-educacao/


sábado, 1 de novembro de 2025

Entre a Memória e o Futuro: Carta ao Imigrante


Vivemos tempos em que a chegada de imigrantes é muitas vezes celebrada com números: “Vêm ajudar a Segurança Social”, dizem.

 Como se a dignidade humana pudesse ser reduzida a uma equação populacional. Mas a verdade é mais complexa, e mais profunda.

Caro Imigrante, que chega de avião, de barco ou de autocarro,  com esperança nos olhos e promessas no bolso: é bem-vindo. Mas antes de te instalares, escuta a história do país que agora te acolhe.

Portugal não nasceu ontem. Foi reconstruído por gerações que não emigraram. Gente que ficou, que estudou, que trabalhou, que resistiu. Que enfrentou ditaduras, revoluções sociais e económicas, que lutou por direitos, por liberdade, por dignidade. 

Nos anos 60, milhares de portugueses partiram, não por escolha, mas por necessidade, fugiram da guerra, da fome e da ditadura. Foram trabalhar para fábricas, minas, campos, longe da família, longe da pátria. E enquanto uns partiam, outros ficavam. E foi essa dualidade,  os que emigraram e os que ficaram, que manteve Portugal de pé.

O 25 de Abril de 1974 não foi apenas uma mudança de regime,  foi uma conquista coletiva. 

Em 1975, 500 mil Portugueses voltam, não deixamos ninguém para trás. 

Foi o início de um projeto de país onde todos pudessem ter voz, escola, saúde, trabalho e futuro.

Essas conquistas não caíram do céu. Foram arrancadas à força da história por quem acreditou que Portugal podia ser mais justo e próspero.

E mesmo quando, décadas depois, a Troika entrou pela porta da frente, impondo austeridade, cortando salários, pensões e sonhos, houve quem ficasse. Houve quem resistisse, quem reconstruísse de novo, quem não desistisse.

Hoje, tu chegas. E se vieres com vontade de somar, de respeitar, de contribuir, serás recebido de braços abertos. Mas é justo que saibas: estás a usufruir de um País que foi construído com suor, sacrifício e esperança. Não é apenas um lugar,  é uma memória viva.

O País que te acolhe, a Segurança Social que te acolhe, a Escola que educa os teus filhos, o Hospital que te trata, tudo isso é fruto de décadas de luta e trabalho. Não te pedimos gratidão cega, mas pedimos consciência. Porque só com respeito mútuo se constrói uma verdadeira comunidade. 

Portugal é feito de encontros. Que o teu seja um encontro feliz  e justo. 

https://observador.pt/opiniao/entre-a-memoria-e-o-futuro-carta-ao-imigrante/


domingo, 26 de outubro de 2025

Sobre o caso da Vereadora Susana Gravato

 “Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos.” — Frase atribuída a Pitágoras

Na sociedade portuguesa, existe um consenso sobre a importância da educação das crianças. Educar não é apenas garantir o direito de frequentar a escola e ter acesso a refeições; é também transmitir valores, ética e responsabilidade, com o objetivo de evitar comportamentos prejudiciais na vida adulta.

O investimento na educação começa na família, que deve proporcionar condições para o desenvolvimento social do indivíduo. A família e a sociedade têm o dever de proteger os menores. Investir na educação é mais eficaz e humano do que corrigir erros através de punições severas.

O dever de proteção dos menores é um princípio fundamental consagrado na legislação portuguesa, especialmente na Lei n.º 147/99, de 1 de setembro, conhecida como a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo.

Existe também uma responsabilidade coletiva: a sociedade tem um papel ativo na construção do futuro, através da educação das crianças.

Estaremos a educar bem as nossas crianças?

Quando um menor de 14 anos, alegadamente mata a própria mãe, não devemos apenas condenar o ato, mas refletir e questionar:

Como é que chegámos aqui?

Começo por refletir:

Como teve o menor acesso a uma arma de fogo?

A partir desta questão, muitas outras podem ser colocadas. Mas eu tenho apenas uma pergunta:

Estaremos, como sociedade, a agir corretamente?

E termino:

A família é vista como o primeiro espaço de proteção, devendo ser apoiada para cumprir esse papel. O Estado só intervém quando a família não consegue assegurar a proteção necessária.


domingo, 14 de setembro de 2025

O Elevador da Glória: Quando Lisboa perde o seu eixo

 

Em 1755, Lisboa foi devastada por um terramoto. Em 2025, perdeu um dos seus ícones: o Elevador da Glória. Só quem vive em Lisboa compreende verdadeiramente o valor deste meio de transporte,  não apenas como atração turística, mas como parte vital da mobilidade urbana.

Os elevadores do Lavra, da Bica e da Glória são muito mais do que postais ilustrados. São ferramentas essenciais para quem vive, trabalha e estuda nas colinas da cidade. Em cada uma delas existem instituições de ensino, desde creches até universidades. São colinas de conhecimento, de infância, de futuro.

Enquanto o Marquês de Pombal, após o terramoto, proclamava: “Vamos enterrar os mortos e tratar dos vivos,” os políticos de 2025 parecem fazer o oposto: ressuscitam símbolos para propaganda e enterram as necessidades dos vivos. Não apresentam soluções para quem depende destes elevadores no dia a dia.

Durante anos, usei o Elevador do Lavra para levar os meus filhos à creche. Durante anos, subi na Glória para dar aulas, enquanto os meus filhos seguiam para a escola. Estes elevadores não são apenas carris e cabos — são memórias, rotinas, vidas.

As colinas que sustentam Lisboa

  • Colina de Santana: Conhecida como a Colina do Conhecimento, abriga creches, escolas a Faculdade de Medicina e vários hospitais.

  • Colina de São Roque: Onde se ergue o Bairro Alto, o Miradouro de São Pedro de Alcântara e instituições como o Liceu Passos Manuel. Uma colina de cultura e educação.

Consequências do encerramento dos elevadores

  1. Mobilidade urbana comprometida Os elevadores ligam zonas de forte inclinação, como os Restauradores ao Bairro Alto (Glória) ou a Rua de São Paulo ao Largo do Calhariz (Bica). Sem eles, os percursos tornam-se mais longos, íngremes e inacessíveis para muitos.

  2. Prejuízo para o turismo O Elevador da Glória é uma das imagens de marca de Lisboa. O seu encerramento afeta diretamente a experiência dos visitantes e o fluxo turístico em zonas históricas.

  3. Pressão sobre a Carris A necessidade de alternativas eficazes recai sobre a empresa de transportes, que enfrenta o desafio de manter a cidade funcional sem estes meios.

  4. Responsabilidade da Câmara Municipal A autarquia precisa de apresentar soluções concretas para evitar o colapso da mobilidade nas colinas e garantir acessibilidade para todos.

O encerramento do Elevador da Glória não pode ser apenas mais um episódio de indignação passageira ou de troca de acusações entre entidades. Lisboa precisa de respostas, não de culpados. A cidade exige soluções práticas, sustentáveis e inclusivas que devolvam aos seus habitantes o acesso digno às suas colinas, às suas escolas, aos seus hospitais e à sua história.

É tempo de unir esforços, ouvir quem vive a cidade todos os dias e agir com responsabilidade. Porque preservar a mobilidade é preservar a vida urbana. E Lisboa, com toda a sua beleza e complexidade, merece mais do que discursos: merece ação.

Elisa Manero



segunda-feira, 28 de julho de 2025

Trabalho Precário: A Nova Bandeira da Esquerda?


A realidade

Em maio de 2025, havia aproximadamente 348.900 pessoas desempregadas.

A taxa de desemprego situava-se em 6,3%.

A taxa de desemprego jovem (16 a 24 anos) era significativamente mais alta: 21,6%.

Cerca de 36,9% dos desempregados são de longa duração, ou seja, estão sem trabalho há mais de um ano.


O que dizem por aí:


Alguns dos mais ilustres políticos de Esquerda não se cansam de afirmar que precisamos de mais imigração. 


A minha pergunta:


  • Será que precisamos?



Eu acho que não porque temos quase 400 000 desempregados que querem trabalhar mas não é com salário mínimo.


O Partido Socialista, o Partido Comunista,  Bloco de Esquerda e o Livre querem promover as grandes fortunas à  custa do trabalho precário e sem direitos dos imigrantes?



Caso Prático: 

Um trabalhador com experiência não aceita o salário mínimo.

Um imigrante aceita qualquer coisa e ainda aceita trabalhar sem ter os impostos em dia, e segurança social .


Os partidos da esquerda estão a promover o trabalho precário em Portugal 


O Governo necessita de tempo para regularizar todos os que cá estão, não precisamos de mais, enquanto a casa não estiver arrumada,

O Governo precisa de tempo.



  • Será que precisamos?

A resposta depende de como equilibramos justiça social, necessidades económicas e dignidade laboral.

Talvez o foco não deva ser “mais ou menos imigração”, mas sim:

  • Imigração regulada e justa

  • Emprego digno para todos

  • Combate à precariedade, independentemente da nacionalidade



Elisa Manero 



domingo, 27 de julho de 2025

Pacheco Pereira no Principio da Incerteza: Como é que a Matemática contribui para a Educação Sexual? A minha resposta.

 

Hoje estava a ouvir o Principio da Incerteza e ouço o Comentador Pacheco Pereira questionar :

Como é que a Matemática contribui para a Educação Sexual?


A minha resposta.

1. Interpretação de Dados e Estatísticas

  • Taxas de gravidez na adolescência: Analisar dados por faixa etária, região ou nível socioeconômico. 

  • Prevalência de DSTs (Doenças  Sexualmente Transmissíveis): Compreender gráficos e tendências ajuda a perceber riscos reais.

  • Eficácia de métodos contraceptivos: Por exemplo, saber que um preservativo tem 98% de eficácia com uso correto pode ser mais impactante quando comparado com outros métodos.

2. Probabilidades e Riscos

  • Probabilidade de gravidez: Entender que mesmo métodos contraceptivos têm margens de falha.

  • Risco de transmissão de DSTs: Ajudar os alunos a perceber que múltiplos parceiros aumentam exponencialmente o risco.

  • Tomada de decisões informadas: Saber calcular riscos pode levar a escolhas mais conscientes.

3. Planeamento Familiar e Financeiro

  • Custo de criar um filho: Usar matemática para estimar despesas mensais e anuais.

  • Planeamento de vida: Projetar cenários futuros com ou sem filhos, com base em rendimentos e objetivos pessoais.

4. Pensamento Crítico e Lógica

  • Desconstrução de mitos: Usar raciocínio lógico para desmontar ideias erradas (como “não se engravida na primeira vez”).

  • Avaliação de fontes: Ensinar a distinguir dados confiáveis de desinformação.

5. Inclusão em Projetos Interdisciplinares

  • Criar projetos que envolvam matemática e educação sexual, como:

    • Simulações de orçamentos familiares.

    • Análise de campanhas de saúde pública.

    • Estudos estatísticos sobre comportamentos sexuais em diferentes culturas.


Fontes que podem ser usadas:
INE e Pordata.