sábado, 1 de novembro de 2025

Entre a Memória e o Futuro: Carta ao Imigrante


Vivemos tempos em que a chegada de imigrantes é muitas vezes celebrada com números: “Vêm ajudar a Segurança Social”, dizem.

 Como se a dignidade humana pudesse ser reduzida a uma equação populacional. Mas a verdade é mais complexa, e mais profunda.

Caro Imigrante, que chega de avião, de barco ou de autocarro,  com esperança nos olhos e promessas no bolso: é bem-vindo. Mas antes de te instalares, escuta a história do país que agora te acolhe.

Portugal não nasceu ontem. Foi reconstruído por gerações que não emigraram. Gente que ficou, que estudou, que trabalhou, que resistiu. Que enfrentou ditaduras, revoluções sociais e económicas, que lutou por direitos, por liberdade, por dignidade. 

Nos anos 60, milhares de portugueses partiram, não por escolha, mas por necessidade, fugiram da guerra, da fome e da ditadura. Foram trabalhar para fábricas, minas, campos, longe da família, longe da pátria. E enquanto uns partiam, outros ficavam. E foi essa dualidade,  os que emigraram e os que ficaram, que manteve Portugal de pé.

O 25 de Abril de 1974 não foi apenas uma mudança de regime,  foi uma conquista coletiva. 

Em 1975, 500 mil Portugueses voltam, não deixamos ninguém para trás. 

Foi o início de um projeto de país onde todos pudessem ter voz, escola, saúde, trabalho e futuro.

Essas conquistas não caíram do céu. Foram arrancadas à força da história por quem acreditou que Portugal podia ser mais justo e próspero.

E mesmo quando, décadas depois, a Troika entrou pela porta da frente, impondo austeridade, cortando salários, pensões e sonhos, houve quem ficasse. Houve quem resistisse, quem reconstruísse de novo, quem não desistisse.

Hoje, tu chegas. E se vieres com vontade de somar, de respeitar, de contribuir, serás recebido de braços abertos. Mas é justo que saibas: estás a usufruir de um País que foi construído com suor, sacrifício e esperança. Não é apenas um lugar,  é uma memória viva.

O País que te acolhe, a Segurança Social que te acolhe, a Escola que educa os teus filhos, o Hospital que te trata, tudo isso é fruto de décadas de luta e trabalho. Não te pedimos gratidão cega, mas pedimos consciência. Porque só com respeito mútuo se constrói uma verdadeira comunidade. 

Portugal é feito de encontros. Que o teu seja um encontro feliz  e justo. 

https://observador.pt/opiniao/entre-a-memoria-e-o-futuro-carta-ao-imigrante/


domingo, 26 de outubro de 2025

Sobre o caso da Vereadora Susana Gravato

 “Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos.” — Frase atribuída a Pitágoras

Na sociedade portuguesa, existe um consenso sobre a importância da educação das crianças. Educar não é apenas garantir o direito de frequentar a escola e ter acesso a refeições; é também transmitir valores, ética e responsabilidade, com o objetivo de evitar comportamentos prejudiciais na vida adulta.

O investimento na educação começa na família, que deve proporcionar condições para o desenvolvimento social do indivíduo. A família e a sociedade têm o dever de proteger os menores. Investir na educação é mais eficaz e humano do que corrigir erros através de punições severas.

O dever de proteção dos menores é um princípio fundamental consagrado na legislação portuguesa, especialmente na Lei n.º 147/99, de 1 de setembro, conhecida como a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo.

Existe também uma responsabilidade coletiva: a sociedade tem um papel ativo na construção do futuro, através da educação das crianças.

Estaremos a educar bem as nossas crianças?

Quando um menor de 14 anos, alegadamente mata a própria mãe, não devemos apenas condenar o ato, mas refletir e questionar:

Como é que chegámos aqui?

Começo por refletir:

Como teve o menor acesso a uma arma de fogo?

A partir desta questão, muitas outras podem ser colocadas. Mas eu tenho apenas uma pergunta:

Estaremos, como sociedade, a agir corretamente?

E termino:

A família é vista como o primeiro espaço de proteção, devendo ser apoiada para cumprir esse papel. O Estado só intervém quando a família não consegue assegurar a proteção necessária.