domingo, 15 de março de 2026

Do Secundário ao Superior: O Atalho Ruinoso

O ensino da Matemática no ensino secundário tem sido alvo de mudanças profundas que, em vez de fortalecerem a formação dos alunos, abriram um fosso perigoso entre a escola e o ensino superior. As Aprendizagens Essenciais (AE) de 2023, apresentadas como uma modernização necessária, reduziram o rigor, fragmentaram conteúdos e reforçaram uma dependência tecnológica que mascara fragilidades graves. Embora ainda não tenham produzido a primeira geração de alunos que chegará ao ensino superior, a direção tomada agrava problemas já existentes e prepara terreno para dificuldades ainda maiores. É importante recordar que as primeiras AE, introduzidas em 2018, apesar de representarem uma simplificação face ao programa de 2014, mantinham ainda uma estrutura coerente e garantiam resultados mais consistentes. Os alunos formados sob estas AE, que são os que atualmente chegam ao ensino superior, apresentavam maior domínio algébrico e menor dependência tecnológica. Mesmo assim, já se verificava uma perda de profundidade face ao programa anterior. A revisão de 2023, ainda mais leve e fragmentada, aponta para um agravamento inevitável desta tendência. A reforma de 2023 introduziu três pilares, Matemática para a Cidadania, Pensamento Computacional e diversificação de temas, que, apesar de bem‑intencionados, diluíram a profundidade científica da disciplina. A possibilidade de cada escola escolher entre Inferência Estatística, Primitivas e Integrais ou Matrizes criou desigualdades e lacunas graves na formação dos alunos. E tudo isto foi feito sem que a Sociedade Portuguesa de Matemática fosse ouvida em todas as etapas, um erro grave num processo que deveria ter sido cientificamente sustentado. A dependência quase total da calculadora gráfica é outro sintoma desta deriva. Aquilo que deveria ser um apoio tornou-se o centro do processo de ensino. Os alunos habituam‑se a resolver exercícios através de comandos automáticos, a interpretar gráficos que não sabem construir e a confiar numa máquina que, no ensino superior, não podem utilizar. Nas universidades, sobretudo nas engenharias e nas ciências, o uso de calculadoras gráficas é proibido. O que conta é o raciocínio, a manipulação algébrica, a capacidade de demonstrar e de resolver problemas de forma autónoma. As consequências já são visíveis. O insucesso no ensino superior tem vindo a aumentar, especialmente no primeiro ano, onde se concentram as disciplinas matemática e cálculo. As taxas de reprovação são elevadas e o abandono escolar cresce de forma alarmante. Muitos estudantes, incapazes de acompanhar o ritmo e a exigência das disciplinas iniciais, acabam por desistir do curso ou mudar de área. O insucesso não se traduz apenas em notas baixas: traduz‑se em frustração, perda de confiança, adiamento de projetos de vida e numa desconexão crescente entre a formação académica e o mercado de trabalho. E tudo isto não acontece por falta de capacidade dos alunos. Acontece porque o sistema lhes retirou treino, profundidade e exigência. As AE de 2018 já tinham reduzido o rigor; as de 2023 aprofundam ainda mais essa fragilização. O fosso entre o secundário e o superior não é um acaso: é o resultado direto de políticas educativas que desvalorizaram o pensamento matemático. É urgente recuperar a seriedade e a profundidade do ensino da Matemática. A disciplina exige esforço, prática, abstração e rigor, competências que não se desenvolvem com atalhos tecnológicos nem com currículos fragmentados. Se queremos formar jovens capazes de enfrentar estudos superiores exigentes, resolver problemas complexos e pensar criticamente, é indispensável reconstruir a ponte que o sistema deixou ruir. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir ao aumento do insucesso e do abandono no ensino superior, um preço demasiado alto para ser pago pelos estudantes, pelas famílias e pelo país.

sábado, 7 de março de 2026

Era da Guerrilha Eleitoral

Portugal viveu, nos últimos três anos, um ciclo político marcado por seis eleições, uma sucessão de crises institucionais e um país permanentemente em modo de campanha. Este ambiente desgastou o eleitorado e abriu espaço para uma nova forma de disputa política: a guerrilha eleitoral, que se tornou central na transformação do sistema partidário. Não foi acaso. Foi o contexto perfeito, uma oportunidade única que alguns partidos souberam aproveitar. Quando um país é arrastado repetidamente para eleições, instala‑se uma fadiga coletiva. O debate perde profundidade ideológica, os partidos do sistema entram em piloto automático e o eleitorado passa a ouvir tudo como ruído. É nesse ruído que a guerrilha eleitoral prospera, e prospera de forma exponencial. Enquanto uns tentavam sobreviver ao desgaste, outros ocupavam o espaço com uma estratégia agressiva, diária, calculada ao milímetro. Não se tratou apenas de comunicar: è de impor presença, dominar ciclos mediáticos e virtuais e transformar cada polémica em palco. A máxima mantém‑se: falem bem ou falem mal, mas falem. A guerrilha eleitoral não é subtil. Vive do confronto permanente, da simplificação radical e da ocupação total do espaço público e digital. Num país cansado, funciona como um choque: até quem vive alheio à política, ou nem vota, tem opinião. E instala-se a sensação de que só há dois lados, “com o sistema” ou “contra ele”. É eficaz porque é emocional e porque se repete até se tornar inevitável. Cada ida às urnas foi mais do que um ato eleitoral: serviu para reforçar presença, testar mensagens, medir impacto e lançar novas personagens politicas. A guerrilha não vive de programas, vive de momentos , e seis eleições oferecem muitos. Enquanto os partidos do sistema explicavam orçamentos, a guerrilha oferecia certezas rápidas, indignação pronta e respostas simples para problemas complexos. Num ciclo tão curto, quem domina o choque ganha vantagem. A crítica constante ao Chega teve um efeito inesperado: ampliou a sua visibilidade. A guerrilha alimenta‑se disso. Cada ataque torna-se prova de perseguição, cada polémica vira palco, cada debate reforça a narrativa anti‑sistema. Num país em campanha permanente, visibilidade é poder, e a guerrilha eleitoral sabe usá‑la como poucos, porque luta para sobreviver e se afirmar no espaço deixado por outros. Mas há um ponto adicional: num ambiente saturado de confronto, quem se distanciou da guerrilha também se beneficiou. A exaustão coletiva abriu espaço para discursos que recusaram entrar no jogo do choque permanente. Num país cansado, o distanciamento tornou‑se, por si só, uma mensagem política. O crescimento do Chega não resulta de um único fator, mas ignorar o impacto da guerrilha eleitoral seria negar o óbvio. Num ambiente saturado e emocional, a estratégia de confronto permanente encontrou terreno fértil. Seis eleições em três anos criaram esse contexto. Nunca, em cinquenta anos, o país mudou tanto. A guerrilha eleitoral ocupou o espaço mediático com um alcance inédito, e quem se afastou desse confronto encontrou também espaço para crescer. O sistema político português mudou, e quem ainda não percebeu fica para trás. E há um dado adicional que não deve ser ignorado: se o país estiver agora três anos de estabilidade até novas eleições, o próprio mapa partidário pode voltar a mudar. Ou a guerrilha eleitoral prospera, ou outras estratégias podem ganhar terreno, outras lideranças podem emergir e o eleitorado pode reorganizar‑se de formas hoje imprevisíveis.
Elisa Manero

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O Retrocesso Silencioso que a Direita Precisa de Enfrentar

A Direita em Portugal está a crescer, mas esse crescimento não é uniforme. Há uma Direita moderada, representada pelo PSD; uma Direita liberal, com a Iniciativa Liberal; e uma Direita extremista, com o Chega. Eu, sendo uma mulher de Direita, não me revejo nem no radicalismo liberal nem no populismo agressivo. Sou mãe, sou casada, trabalho, e nunca aceitei a ideia de que o mundo pertence aos homens. Desde cedo enfrentei a supremacia masculina, e se isso faz de mim uma feminista de direita, então assumo-o sem reservas. Porque, sejamos claras: se um homem precisa de humilhar uma mulher para se sentir forte, não serve. Não serve para liderar, não serve para governar, não serve para construir nada. A minha posição é simples e coerente: sou contra desigualdades, discriminações e estruturas patriarcais; defendo a equidade salarial, os direitos reprodutivos, o combate à violência de género e a igualdade na representação política. Nada disto é incompatível com ser de direita, é incompatível, isso sim, com um conservadorismo que tenta ressuscitar um passado que já não existe. Durante décadas, a mulher tinha dois destinos: casar ou ficar em casa dos pais como empregada. Esse modelo desapareceu e não voltará. O homem, por sua vez, casava e criava família ou ficava em casa dos pais, os eternos “meninos da mamã”. Cada um fazia a sua escolha e o mundo seguia. Mas hoje, de forma subtil, começa a reaparecer um discurso que tenta recuperar o modelo tradicional, só que com uma contradição evidente: a mulher continua a trabalhar, mas o homem quer voltar a ser o “chefe de família”. O resultado é um papel triplo imposto às mulheres, trabalhadora, mãe e ainda esposa obediente, um modelo impossível, injusto e completamente desfasado da realidade. É neste contexto que surge o pacote laboral do Governo, apresentado como modernizador e promotor da conciliação. Mas, na prática, pode agravar desigualdades já existentes. Alterações na remuneração, suplementos e formas de contabilização de rendimentos podem penalizar ainda mais as mulheres, que continuam a ganhar menos mesmo quando são mais qualificadas. A flexibilização anunciada como solução para a vida familiar pode, na verdade, recair sobretudo sobre elas, reforçando a carga mental e travando progressões na carreira. Para a classe média, o pacote introduz incerteza sobre rendimentos e estabilidade, afetando decisões fundamentais como ter filhos, mudar de emprego ou investir em formação. O risco é claro: um retrocesso silencioso. Um país que fala de igualdade enquanto aprofunda desigualdades. Uma sociedade que diz valorizar as mulheres enquanto lhes exige tudo, e ainda mais um pouco. A igualdade de género, a conciliação entre trabalho e família e o impacto real das reformas laborais na vida das mulheres e da classe média não são temas laterais: são estruturais. E é fundamental que sejam tratados com seriedade, frontalidade e responsabilidade institucional. Portugal não pode permitir que discursos regressivos se imponham sobre a realidade das mulheres portuguesas, nem que reformas apresentadas como progresso acabem por reforçar desigualdades antigas. A democracia amadurece quando enfrenta os temas difíceis. Este é um deles. E é tempo de o colocar no centro do debate nacional, sem ruído, sem slogans, sem medo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

1º capítulo : As Presidenciais de 2026: O essencial, o acessório e o ruído.

A AD decidiu apoiar Luís Marques Mendes, cujo slogan era a experiência. A experiência é necessária num professor, num mestre, num mentor. Mas num mundo em mudança, a palavra inovação também é indispensável. Marques Mendes tentou replicar o modelo Marcelo. Mas o modelo Marcelo tinha uma ideia: comentava com a emoção de um Professor. Podia discordar-se dele, mas raramente alguém ficava zangado; no limite, fez-se amar. Marques Mendes tinha outro papel: o da verdade absoluta, do comentário seco, sem emoção nem humanidade. Para alguns, podia ser referência; para outros, era indiferente. O carisma ,,,,,,, E os outros? António José Seguro voltou. Quando saiu, em 2014, saiu em silêncio. Foi cuidar da sua vida. Passados dez anos, mediu o momento. Quem o apoiou ficou em cheque. Quando começou a subir nas sondagens, o Partido Socialista correu a apoiá-lo. Mas quem ganhou foi António José Seguro não foi o Partido Socialista. Seguro não gritou, não esperneou. Soube esperar. Nunca tinha visto uma campanha presidencial assim. Foi degradante. Houve de tudo até comédia. Ganhou quem cometeu menos erros, quem pensou antes de falar, quem mediu os silêncios, quem soube distinguir o essencial do acessório. E podem perguntar: Votou no Seguro? Eu não votei em António José Seguro. Mas tenho sentido crítico. E oiço bem. Muito bem.
Elisa Manero