domingo, 15 de fevereiro de 2026
O Retrocesso Silencioso que a Direita Precisa de Enfrentar
A Direita em Portugal está a crescer, mas esse crescimento não é uniforme. Há uma Direita moderada, representada pelo PSD; uma Direita liberal, com a Iniciativa Liberal; e uma Direita extremista, com o Chega. Eu, sendo uma mulher de Direita, não me revejo nem no radicalismo liberal nem no populismo agressivo. Sou mãe, sou casada, trabalho, e nunca aceitei a ideia de que o mundo pertence aos homens. Desde cedo enfrentei a supremacia masculina, e se isso faz de mim uma feminista de direita, então assumo-o sem reservas.
Porque, sejamos claras: se um homem precisa de humilhar uma mulher para se sentir forte, não serve. Não serve para liderar, não serve para governar, não serve para construir nada. A minha posição é simples e coerente: sou contra desigualdades, discriminações e estruturas patriarcais; defendo a equidade salarial, os direitos reprodutivos, o combate à violência de género e a igualdade na representação política. Nada disto é incompatível com ser de direita, é incompatível, isso sim, com um conservadorismo que tenta ressuscitar um passado que já não existe.
Durante décadas, a mulher tinha dois destinos: casar ou ficar em casa dos pais como empregada. Esse modelo desapareceu e não voltará. O homem, por sua vez, casava e criava família ou ficava em casa dos pais, os eternos “meninos da mamã”. Cada um fazia a sua escolha e o mundo seguia. Mas hoje, de forma subtil, começa a reaparecer um discurso que tenta recuperar o modelo tradicional, só que com uma contradição evidente: a mulher continua a trabalhar, mas o homem quer voltar a ser o “chefe de família”. O resultado é um papel triplo imposto às mulheres, trabalhadora, mãe e ainda esposa obediente, um modelo impossível, injusto e completamente desfasado da realidade.
É neste contexto que surge o pacote laboral do Governo, apresentado como modernizador e promotor da conciliação. Mas, na prática, pode agravar desigualdades já existentes. Alterações na remuneração, suplementos e formas de contabilização de rendimentos podem penalizar ainda mais as mulheres, que continuam a ganhar menos mesmo quando são mais qualificadas. A flexibilização anunciada como solução para a vida familiar pode, na verdade, recair sobretudo sobre elas, reforçando a carga mental e travando progressões na carreira. Para a classe média, o pacote introduz incerteza sobre rendimentos e estabilidade, afetando decisões fundamentais como ter filhos, mudar de emprego ou investir em formação.
O risco é claro: um retrocesso silencioso. Um país que fala de igualdade enquanto aprofunda desigualdades. Uma sociedade que diz valorizar as mulheres enquanto lhes exige tudo, e ainda mais um pouco.
A igualdade de género, a conciliação entre trabalho e família e o impacto real das reformas laborais na vida das mulheres e da classe média não são temas laterais: são estruturais. E é fundamental que sejam tratados com seriedade, frontalidade e responsabilidade institucional. Portugal não pode permitir que discursos regressivos se imponham sobre a realidade das mulheres portuguesas, nem que reformas apresentadas como progresso acabem por reforçar desigualdades antigas.
A democracia amadurece quando enfrenta os temas difíceis. Este é um deles. E é tempo de o colocar no centro do debate nacional, sem ruído, sem slogans, sem medo.
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