domingo, 20 de setembro de 2026

PISA 2025: A década perdida e a urgência de recuperar a escola da exigência

Os resultados do PISA 2025 não surpreendem quem vive a escola por dentro. Surpreendem apenas quem, nos últimos anos, preferiu acreditar que a flexibilização curricular, a inclusão total e a avaliação “centrada no processo” seriam suficientes para compensar a realidade: uma geração que perdeu aprendizagens estruturantes e um sistema educativo que, em vez de reforçar a exigência, a diluiu até à irrelevância. Portugal obteve 482 pontos em Ciências, 462 em Leitura e 460 em Matemática. Estes valores confirmam a tendência já visível no PISA 2022, onde o país tinha descido para 472 em Matemática, 477 em Leitura e 484 em Ciências. Para perceber a profundidade desta quebra, basta recordar 2015: 492 pontos em Matemática, 498 em Leitura e 501 em Ciências. Entre 2015 e 2025, Portugal perdeu 32 pontos em Matemática, 36 em Leitura e 19 em Ciências. Não é uma oscilação: é uma queda estrutural. A pandemia explica muito, mas não explica tudo. Os alunos avaliados no PISA 2025 tinham 15 anos em 2025. Em 2020, frequentavam maioritariamente o 4.º e o 5.º anos, precisamente o período em que se consolidam as competências basilares de leitura, escrita, cálculo e raciocínio lógico. O ensino remoto, a ausência de interação presencial e a desigualdade no acesso a meios digitais deixaram marcas profundas. Muitos alunos nunca recuperaram totalmente as lacunas acumuladas, apesar dos programas de recuperação implementados nos anos seguintes. Mas seria intelectualmente desonesto atribuir toda a responsabilidade à pandemia. Há mais fatores em jogo, e alguns deles são estruturais. A política educativa portuguesa dos últimos anos tem sido marcada por dois diplomas centrais: o Decreto‑Lei n.º 54/2018, que reformulou a Educação Inclusiva, e o Decreto‑Lei n.º 55/2018, que reorganizou o currículo e introduziu a flexibilidade curricular. Ambos nasceram com intenções nobres. Mas a sua aplicação prática, em muitas escolas, produziu um efeito perverso: a normalização da desresponsabilização estudantil. O DL 54, ao alargar o conceito de “medidas de suporte à aprendizagem”, abriu espaço para adaptações que, em vez de resolverem dificuldades, as mascararam. Criou-se a ideia de que o esforço deixou de ser central: se o aluno não consegue, adapta-se; se continua a não conseguir, flexibiliza-se; se ainda assim não consegue, relativiza-se. O DL 55, ao introduzir a flexibilidade curricular, foi frequentemente interpretado como autorização para reduzir conteúdos, simplificar tarefas e suavizar critérios de avaliação. A exigência passou a ser vista como obstáculo à inclusão, e não como condição para a verdadeira equidade. O resultado é uma escola onde muitos alunos aprenderam que o mínimo basta, porque o sistema lhes garante progressão independentemente do domínio real das aprendizagens. A conjugação entre a perda de aprendizagens durante a pandemia, a flexibilização curricular excessiva, a diluição dos critérios de exigência e a normalização das adaptações criou uma tempestade perfeita. Os alunos que hoje frequentam o 9.º, 10.º e 11.º anos são precisamente aqueles que perderam maturação escolar nos anos críticos, transitaram com lacunas graves, foram avaliados num sistema que suavizou dificuldades e cresceram numa cultura escolar onde o esforço raramente é recompensado. Os resultados do PISA 2025 são o reflexo desta combinação explosiva. Os exames nacionais já vinham revelando fragilidades persistentes — dificuldades de interpretação, incapacidade de argumentação escrita, erros básicos de cálculo, raciocínio matemático frágil. O PISA apenas confirmou aquilo que os professores repetem há anos, muitas vezes sem serem ouvidos. A pandemia foi um choque. Os DL 54 e 55 foram um acelerador. A falta de exigência foi o combustível. Se Portugal quiser inverter esta trajetória, terá de assumir três verdades incómodas: a pandemia deixou marcas profundas e duradouras; a flexibilização curricular foi aplicada de forma acrítica e excessiva; a exigência tem de voltar ao centro da escola. Sem rigor, não há equidade. Sem esforço, não há aprendizagem. Sem exigência, não há futuro. Os resultados do PISA 2025 não são apenas números. São um espelho, e o que vemos nele exige coragem política, lucidez pedagógica e uma mudança de rumo. A escola portuguesa não precisa de mais discursos. Precisa de recuperar a exigência, a responsabilidade e a verdade. E há uma novidade: os alunos que hoje frequentam o 3.º ciclo são melhores a Matemática do que a Português. A realidade educativa não melhorou para a matemática, mas piorou muito o domínio da leitura e da escrita. É uma diferença real, observável, diária. Eu sei. Eu estou lá.

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